O PORQUÊ DA FAZENDA DR. PAULA RODRIGUES NO MUNICÍPIO CEARENSE DE SANTA QUITÉRIA ABRIGAR JUMENTOS CAP
- Laura Pereira de Melo
- 15 de mar. de 2016
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O jumento, animal menor que o cavalo e o burro, também sempre foi utilizado para tração e montaria. Maltratados com carga excessiva , honorário de trabalho exaustivo, pouco repouso, mal alimentado, quando considerado imprestável pelo dono, por estar velho e inapto para o trabalho, é abandonado e morre miseravelmente de fome e sede, ou atropelado.
Explorados de todas as formas, inclusive sendo exportado para outros países para consumo e utilizado para experiências em laboratórios, padre Antonio Vieira, cearense de Várzea Alegre e protetor do jumento, décadas atrás, fechou 11 (onze) multinacionais que levavam esses animais do Ceará e de outros estados do nordeste para essas finalidades. Nessa época, de tanto jumento exportado, quase a espécie chega à extinção.
Contudo, o rebanho se recompôs e em pouco tempo, já havia grande quantidade de jumentos em todo nordeste. Era utilizado pelo homem do campo no trabalho forçado e servia também como meio de transporte. Porém, como avanço da tecnologia, a facilidade de aquisição de bicicletas e motos, além da ausência de um trabalho de controle de natalidade, o animal perdeu a serventia e o valor econômico. Passou as ser considerado um estorvo, pois abandonados nas estradas, provocavam acidentes, muitas vezes fatais para o ser humano.
Aumentando cada vez mais a população de jumentos, não obstante a grande quantidade de óbitos em face dos atropelamentos, da fome e sede, abandonados nas estradas, esse animais, eram vítimas da crueldade de certas pessoas que se sentiam incomodados com suas presenças. Era muito comum, encontrar-se pela manhã, dez, vinte, trinta ou mais jumentos mortos a tiros de revólver, por motoristas que trafegavam nas estradas à noite. E quanto mais o tempo passava, mais jumentos trafegavam nas estradas e mais crueldades contra eles eram praticadas.
Tentado solucionar o problema do jumento nas estradas, Lei Estadual foi sancionada determinando que todos os animais encontrados nas Rodovias Estaduais, fossem capturados pelo Dert – Departamento Estadual de Rodovia e Transporte e levados para currais, devendo no prazo de 7 (sete) dias, ser dada a eles uma destinação. Criaram em todo estado dez cercados (não currais apropriados como determinava a lei), que denominaram de Unidades Residenciais. Dependendo do local onde os animais fossem aprendidos, seriam levados para a Unidade Residencial da circunscrição.
Após sete dias da permanência do jumentos nos cercados, sem água e comida, os que resistiam (não morriam) eram levados para um local bem distante. Sucede, que eles voltavam novamente pra as estradas e e eram novamente capturados e levados para os cercados e novamente levados para locais distantes. Ficou aquele circulo vicioso, pois muitos animais que resistiam à fome e sede, eram capturados várias vezes.
No ano de 2003, recebo um telefonema de um funcionário do Dert do município de Quixeramobim, desesperado dizendo que ia suicidar-se, pois não suportava mais ver tanto sofrimento dos jumentos, há mais de um ano, mais de 10 mil jumentos foram enterrados vivos pelo Dert desse município. Relatou os fatos: toda quinta feira cavavam valas com o trator do órgão num local longe e abandonado da cidade, para nas sextas feiras , realizarem o que chamavam de Plano B: vinham dois irmãos de Canindé, que na sexta feira, iniciando à 17 horas, levavam em um caminhão carradas de jumentos para serem enterrados vivos. O procedimento se dava da seguinte forma: tirávamos jumentos do caminhão e o funcionário do Dert Paulinho jogava cada jumento numa vala (feita no dia anterior) e o Por Estaca (apelido de outro funcionário do Dert), joga em cima as pás de areia.
Fiquei chocada com esse telefonema e liguei imediatamente para o Superintende do Dert que pediu calma e que eu aguardasse que ele iria retornar meu telefonema. Ligou em seguida dizendo que suspendeu a matança (depois negou na Imprensa). Alardeei o fato na Imprensa e este tomou vulto mundial, apear de na época não existir e-mails, redes sociais etc. Jornais de todo o País, divulgaram a matéria e este fato foi de uma repercussão negativa para o governo do Estado do Ceará.
Objetivando livrar-se do problema dos animais nas estadas, o governador, após a repercussão sobre enterrar jumentos vivos, em parceria com o prefeito de Santa Quitéria, construiu um matadouro nesse município, com o intuito de exportar a carne dos jumentos para Bélgica, Japão de Holanda. Quando tomamos conhecimento, os trabalhos de abate dos animais já havia sido iniciados, porém, não havia sido realizada a exportação da carne.
Travamos como apoio da OAB/CE e do Ministério Público, uma luta muito grande para fechar esse matadouro, que não era um só, mas muitos, com indústrias de artesanato fabricado com os ossos dos jumentos e de calçados, cintos etc. com o couro..
Procuramos as Embaixadas dos Países que iriam importar a carne dos jumentos, os Ministérios etc. alertamos para as doenças transmissíveis pelos jumentos, principalmente o mormo (letal e transmitida também para o ser humano), falta de inspeção sanitária, tendo em vista que o governador ordenou a todos os veículos do Dert e dos CCZs do interior para capturar todos os jumentos encontrados e estes logo eram abatidos.
Na impossibilidade de exportar a carne para Bélgica, Japão e Holanda, a Equuos Agroindutrial S/A, a empresa contratada pelo governo do Estado do Ceará para o abate dos jumentos no Matadouro de Santa Quitéria, passou vendê-la para a empresa Friboi, para a fabricação de enlatados (salsicha, mortadela etc), em sua filial, na cidade de Três Corações, no Rio de Janeiro e para a fabricação de lingüiça, no Ceará.
Inobstante tantos problemas em relação aos jumentos no Ceará, o desgaste do governo do Estado, os maus tratos contra esses animais continuavam. Matança nas estradas, abate para servir de alimentação em zoológico particular, em circos etc., mas nos sempre denunciando, combatendo, imprensa dando apoio etc.
No ano de 2008, o governo do Estado do Ceará teve uma atitude que deveria servir de exemplo para os outros estados nordestinos, onde há grande concentração de jumentos: destinou no município de Santa Quitéria, a fazenda Dr. Paula Rodrigues para abrigar os animais encontrados nas estradas estaduais, agora capturado pelo Detran/Ce e não mais pelo Dert, que passou a ser DER. O Detran/CE, além de apreender os animais nas estadas, é encarregado da sua administração. No momento estão abrigados nessa fazenda 5.000 (cinco mil) jumentos, e estamos com o projeto de transformá-la no Parque Nacional de Proteção aos Jumentos Padre Antonio Vieira, ou seja, um santuário para os jumentos, como chamam em outros países.